Autismo: Crer é referência no tratamento multiprofissional e promove socialização e autonomia de crianças e adolescentes com TEA
No Dia Mundial de Conscientização do Autismo, hospital se destaca como referência com foco na independência e funcionalidade dos pacientes
Dificuldades na comunicação e interação social, complicações para frequentar ambientes públicos, comportamentos atípicos para a idade, inúmeras idas a médicos, diagnósticos equivocados e tratamentos insuficientes. Essas são as dores mais relatadas entre pais de crianças atípicas cujo diagnóstico ainda é desconhecido. Esses também eram os maiores desafios enfrentados por Núbia do Nascimento, mãe de Abner (9) e Caleb (10), até o ano de 2019, quando o mais velho foi encaminhado para o Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer), unidade da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO). O que antes parecia impossível, como idas ao shopping, zoológico, restaurantes e fazenda, virou rotina de lazer, graças às terapias encaminhadas pela neurologista do Crer, Drª Aline Rodrigues, após a definição do diagnóstico do pequeno: Transtorno do Espectro Autista (TEA), nível 2 de suporte, e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Alguns anos depois, o mais novo também receberia o mesmo laudo.
Abril Azul é uma campanha mundial, instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU), que busca promover conhecimento sobre o TEA, conscientizar a população, combater preconceitos, defender direitos e aumentar a discussão acerca da necessidade de políticas públicas e suporte às pessoas autistas. O Dia Mundial da Conscientização do Autismo é celebrado em 2 de abril, uma data cujo objetivo é trazer o tema ao debate público e incentivar a criação de ambientes mais acolhedores e inclusivos para pessoas com TEA e suas famílias.
O diagnóstico do TEA é feito através da observação de algumas manifestações clínicas (conjunto de sinais ou sintomas demonstrados) que interferem de maneira significativa no jeito que a pessoa interage com o meio em que convive. De acordo com o Dr. Hélio Van der Linden Júnior, médico neurologista infantil do Crer, para se encaixar num quadro de autismo, a pessoa deve ter alguma alteração da cognição e comunicação social.
O autismo não tem uma causa definida, contudo, segundo o médico neurologista, em quase 90% dos casos existe um forte componente genético. É o que aconteceu com Luisa Pedrollo (7), filha de Acácio Pedrollo que, após identificar no questionário de triagem da filha traços do autismo compatíveis com ele, fez uma avaliação neurológica e descobriu que também compartilhava o TEA.
Contudo, mais urgente que fechar um diagnóstico ou identificar a causa, é promover a intervenção precoce. “Muitas vezes, quando vemos crianças com atraso do neurodesenvolvimento e não se tem uma certeza diagnóstica, o mais importante é encaminhar para a terapia. O diagnóstico será confirmado depois, ou não, mas o importante é não perder essa janela de oportunidade para uma intervenção”, pontua o neuropediatra. A intervenção precoce é um conjunto de medidas terapêuticas multidisciplinares aplicadas em crianças de até 6 anos de idade, período em que a neuroplasticidade cerebral é maior. É nessa fase que o cérebro da criança está fazendo milhares de conexões novas por dia e, com o estímulo precoce, é possível adquirir resultados muito mais eficazes do que pessoas que começam terapia mais tardiamente.
É o caso da pequena Louise Isabela Paiva (7), a terceira filha de Gleyciane Paiva, que chegou ao Crer com menos de 3 anos de idade. Antes de ser encaminhada à unidade, Louise não demonstrava habilidades de interação social e nem respondia aos chamados dos pais. A mãe cogitou a possibilidade de ser uma deficiência auditiva, posteriormente descartada, e chegou a ouvir de alguns profissionais que o problema estava nela, que se perturbava com algo que era normal e passageiro. Porém, persistente e observadora, Gleyciane conseguiu um encaminhamento ao neuropediatra do Crer, que fechou o diagnóstico da pequena em 5 meses. Após a avaliação global, os atendimentos começaram. “Eu até brincava para eles me darem a varinha mágica que estavam usando, porque eu já tinha tentado de tudo e nunca consegui o que eles tinham alcançado”. Hoje em dia, Louise é uma criança ativa, que brinca, conversa e faz amizades e, após as múltiplas terapias no Crer e continuidade da estimulação dentro de casa, ela passou do 2, para o nível 1 de suporte.
ABORDAGENS TERAPÊUTICAS
Terapia ocupacional, psicologia, fonoaudiologia, psicopedagogia, equoterapia, musicoterapia, arterapia e diferentes esportes são as intervenções ofertadas de forma gratuita pela unidade. Atualmente, são atendidos 231 pacientes, sendo a maioria na faixa etária dos 4 aos 10 anos.
A jornada de cada paciente tem início na avaliação global com a triagem médica, em conjunto com a equipe multiprofissional. O paciente é então inserido em pelo menos uma terapia especializada, para receber uma avaliação específica de seu desenvolvimento. A partir daí, a equipe multidisciplinar traça um Projeto Terapêutico Singular (PTS), que propõe ações personalizadas para cada paciente. “O que muda no desfecho dos nossos pacientes é que temos um processo robusto, com etapas bem definidas, alinhamento constante entre todos da equipe e familiares, a exigência de participação dos pais nas capacitações e, principalmente, muito amor envolvido”, pontua Sofia Mustafé, supervisora da Clínica Intelectual.
A jornada e evolução de cada paciente é extremamente individual: inicialmente, é feita uma avaliação que verifica as potencialidades e lacunas do paciente. A partir daí, monta-se um programa de intervenção baseado nisso. “O que é interessante no Crer é que a terapia foca na funcionalidade, orientando e treinando os pais, para que eles possam implementar o que eles aprendem aqui dentro de casa e na vida cotidiana”, ressalta o neuropediatra Dr. Hélio van der Linden.
As terapias ensinam o caminho das pedras, mas a maior parte da evolução acontece dentro de casa: o engajamento da família é fundamental para se observar melhoras nos quadros dos pacientes. Foi a partir dessa abordagem múltipla que Luisa, filha de Acacio, abandonou comportamentos de autolesão e crises intensas e passou a ter maior autonomia dentro e fora de casa. “Ela consegue fazer muita coisa sozinha, como se alimentar, andar, falar e interagir com outras crianças, graças ao Crer, mas eu sei que a base é a família, é dever nosso como pai estimular, não ficar só dependendo do terapeuta. Porque senão a criança não evolui.”
Para Núbia, mãe de Abner e Caleb, o mais importante é que seus filhos sejam independentes quando ela não estiver mais presente em vida, para que eles possam se virar sozinhos, terem autonomia e serem adultos funcionais. Gleyciane, mãe de Louise, reforça para outras famílias a importância de persistir: “Não diminua a sua criança, não é um laudo que deve limitá-la, ela tem potencial tanto quanto qualquer outra criança neurotípica”. Autonomia, independência e funcionalidade são as principais conquistas que os pais de crianças atípicas desejam para seus filhos e o Crer, como centro de referência que oferta diversas abordagens terapêuticas com efetividade comprovada, se consolida como um grande parceiro nesta luta.
Texto e fotos: Gabriela Tavares/Agir
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