Maio Amarelo: Crer ajuda pacientes a reconstruírem vidas após acidentes graves por meio da reabilitação especializada
Atendimento multiprofissional transforma histórias de vítimas de trânsito com traumas graves
Excesso de velocidade, ultrapassagens proibidas, falta de atenção e distração, negligência e irresponsabilidade são erros evitáveis com consequências graves que se repetem na maioria das histórias de pacientes do ambulatório de terapias multiprofissionais do Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer), unidade da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO). Os pacientes vítimas de acidentes de trânsito representam uma parcela significativa dos atendimentos da unidade: atualmente, 80 pessoas estão em processo de reabilitação por sequelas decorrentes desse motivo.
No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas. Esse é o tema de 2026 da campanha Maio Amarelo do Observatório Nacional de Segurança Viária, uma iniciativa dedicada a reduzir os índices de vítimas no trânsito brasileiro. O motorista do carro que atingiu Daniel Barbosa (40) em agosto de 2021 não o havia visto e fez uma conversão repentina à esquerda, colidindo em cheio com a moto que o rapaz pilotava e causando lesões nas vértebras C6 e C7 do pescoço do goiano. Graças ao capacete, a cabeça ficou intacta, mas a pancada foi tão forte que quebrou o meio fio. “No hospital, o diagnóstico do médico foi que a minha lesão era muito alta e eu nunca mais iria mexer nem os braços”, conta o metalúrgico.
Mais de 5 anos depois, após uma cirurgia e inúmeras terapias para reabilitação, Daniel consegue se transferir sozinho da cadeira de rodas para o sofá, cama ou chão, subir em rampas, se deslocar com seu carro adaptado, além de outras atividades que antes pareciam impossíveis. No Crer, ele faz fisioterapia, terapia ocupacional e natação e afirma que a unidade lhe proporcionou muito mais autonomia, “Antigamente, eu tinha medo, não tinha confiança de sair sem ninguém junto e o Crer me deu coragem para encarar a vida sozinho”.
SUPERAÇÃO
As consequências de um acidente de trânsito também se estendem para além das vítimas. Numa tarde de sábado tranquila em outubro de 2025, na cidade de Anápolis-GO, Maria Eduarda Gomes (19) precisava chegar rápido a um serviço extra e pediu uma moto por aplicativo. Chegando perto do destino, o motorista realizou uma ultrapassagem em alta velocidade e acabou colidindo em um carro na esquina que estava prestes a entrar na rua. A jovem foi jogada a mais de 10 metros, fazendo uma cambalhota por cima do carro e seu capacete caiu. A cabeça desprotegida foi de encontro direto com o asfalto e Maria sofreu um traumatismo craniano e teve que ser submetida a uma cirurgia na cabeça. Cláudia Gomes, que trabalhava como técnica de enfermagem, estava cursando faculdade de enfermagem e mantinha dois empregos para ajudar com os custos da casa, largou tudo para cuidar da filha. Depois de 84 dias de internação, contrariando a expectativa da equipe médica, que chegou a abrir um protocolo para morte encefálica, Maria Eduarda foi liberada para voltar para casa, conseguindo sustentar o tronco e se alimentando de líquidos.
Seis meses depois, com uma rotina intensa de terapias físicas e cognitivas no Crer, a jovem recuperou parte da fala e dos movimentos dos membros superiores. Apesar de ainda estar na cadeira de rodas, Maria Eduarda realiza algumas atividades sozinha e faz fisioterapia 4 vezes na semana para realizar seu sonho de voltar a andar.
ATENDIMENTO NO CRER
No Crer, o paciente tem duas vias de entrada: urgência ou triagem ambulatorial. Na urgência, o encaminhamento é feito por transferência entre hospitais para a Reabilitação em Internação, cujo tempo médio dura cerca de 30 dias. Neste caso, o paciente é admitido pelo médico fisiatra na internação e recebe um plano terapêutico cujas metas terapêuticas são discutidas, semanalmente, com envolvimento do paciente e toda equipe multiprofissional: fisiatra, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, profissional de educação física, psicólogo, nutricionista, farmacêutico, assistente social e enfermeiro. No encaminhamento ambulatorial, é definido o projeto terapêutico singular do paciente na avaliação global, os profissionais envolvidos no seu processo de reabilitação e as terapias de apoio que serão aplicadas, com reavaliações periódicas a cada 3 meses. O tempo médio de tratamento atualmente está em torno de 11 meses.
Apesar dos prazos estabelecidos, não existe um tempo definido para um paciente recuperar sua autonomia; o tempo varia bastante, conforme a gravidade das lesões e as condições clínicas do paciente. “Cada paciente tem um tempo de recuperação: em alguns casos, a evolução pode ser percebida em semanas, enquanto em outros, o processo é mais longo”, comenta Fabianne Cardoso, supervisora de reabilitação ambulatorial do Crer. “Parte do nosso trabalho é ajudar o paciente a compreender essa nova realidade, reconhecer cada avanço e desenvolver novas formas de conquistar autonomia”.
O Crer desempenha um papel fundamental no processo de reabilitação de vítimas de trânsito, oferecendo atendimento integral com equipe multidisciplinar. A unidade oferece atendimento ambulatorial e internação, com reabilitação física, neurológica, terapias especializadas e dispensação de órteses e próteses, além de terapias complementares como equoterapia, hidroterapia e academia terapêutica.
NOVAS PERSPECTIVAS
Para Rodrigo Oliveira (32), que trabalhava como mecânico quando capotou o carro em um acidente há quase dois anos, a família e a fé foram fundamentais para sua reabilitação. Com uma lesão medular na altura da C5, Rodrigo ficou tetraplégico e recebeu a notícia de que não voltaria a andar e poderia perder a fala. Contudo, a evolução foi gradual, começando a mexer os dedos dos pés e das mãos e, posteriormente, após meses de terapias no Crer, recuperou o movimento dos braços e pernas, embora ainda com algumas sequelas. O acidente mudou sua perspectiva de vida, levando-o a se amar mais e ter mais calma, além de valorizar o tempo que desfruta em casa com a mãe e a filha de 9 anos.
Ailton dos Santos (62) levava uma rotina ativa, centrada principalmente no trabalho, antes do acidente de moto que quase levou sua vida em maio de 2024. Causado por um material de construção deixado no meio da rua que percorria à noite após o trabalho, o acidente resultou em uma lesão medular grave na altura das vértebras C4 e C5. No início, Ailton conseguia mexer apenas os olhos, e tinha dependência total de outras pessoas para atividades básicas. Após um ano de fisioterapia, hidroterapia e acompanhamento no Crer, começou a apresentar evolução gradual e hoje, recuperou boa parte dos movimentos, conseguindo andar sozinho, cozinhar e cuidar da própria higiene, embora ainda tenha limitações na mão e perna direita. A experiência transformou completamente sua visão de vida, fortalecendo sua espiritualidade e o desejo de ser uma pessoa melhor. “Me sinto muito sortudo por estar vivo e por ter tido ajuda de tantas pessoas”, completa. Em meio ao turbilhão de sentimentos, o que lhe motiva é a família: as filhas e a chance de acompanhar o crescimento e criação das netas.
Em um momento em que o Brasil enfrenta um cenário crítico no trânsito, em razão da alta vulnerabilidade dos motociclistas, a campanha Maio Amarelo busca conscientizar a população acerca das consequências permanentes que alguns segundos de distração podem gerar. Não se trata apenas do momento do impacto, mas de todo o processo posterior que envolve limitações físicas, sofrimento emocional e mudanças profundas na vida das pessoas, vítimas diretas e indiretas. Em 2025, segundo o Detran-GO, o estado de Goiás registrou 100.917 acidentes, sendo os motociclistas as maiores vítimas, concentrando mais de 60% das internações no SUS e 71% dos pacientes do Crer. O lembrete que fica não se restringe ao mês de maio, mas deve persistir o ano inteiro, todos os anos: atitudes simples salvam vidas. Respeitar as leis de trânsito, evitar o uso do celular ao dirigir, não dirigir sob efeito de álcool e outras substâncias ilícitas e adotar comportamentos seguros são medidas essenciais que previnem acidentes e preservam vidas.
