Do resgate ao cuidado: Crer adota égua vítima de maus-tratos
Batizada como “Chuva”, a égua simboliza recomeço, cuidado e transformação no processo terapêutico dos pacientes
Uma história marcada pela dor deu lugar a um novo capítulo de acolhimento, cuidado e transformação no Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer). A unidade de saúde do Governo de Goiás adotou uma égua que foi vítima de maus-tratos e que, agora, passa a integrar o serviço de equoterapia, reforçando o compromisso do Crer com a vida, o bem-estar e a reabilitação integral, tanto de pessoas quanto de animais.
A égua vivia em situação de exploração, sendo utilizada para puxar carroça em Senador Canedo. Durante um episódio de extrema violência, testemunhado por moradores da região, o antigo tutor agrediu brutalmente o animal, que acabou sofrendo um aborto após o ataque. A comoção popular impediu que as agressões continuassem e levou à intervenção do Centro de Zoonoses do município, que realizou o resgate.
Após o episódio, a égua permaneceu sob cuidados veterinários e, cumpridos todos os trâmites legais, foi disponibilizada para adoção. O Crer, reconhecido nacionalmente pelo atendimento humanizado e multiprofissional, decidiu acolher o animal, iniciando um cuidadoso processo de avaliação clínica, exames laboratoriais e período de quarentena, com apoio da equipe veterinária da Cavalaria da Polícia Militar do Estado de Goiás (PM-GO).
“Desde o primeiro contato, entendemos que não se tratava apenas de uma adoção, mas de um gesto de responsabilidade, cuidado e coerência com o que acreditamos enquanto instituição. Aqui, reabilitamos histórias, trajetórias e vidas”, destaca a supervisora multiprofissional de terapias de apoio do Crer, Karla Lorena Mendonça.
Durante esse período, a égua recebeu tratamento contra parasitas, acompanhamento clínico e ganhou peso, força e vitalidade. Hoje, já apresenta condições físicas e comportamentais adequadas para iniciar os testes de adaptação à equoterapia, atividade terapêutica que utiliza o movimento do cavalo como recurso no processo de reabilitação física, cognitiva e emocional de pacientes.
Um nome escolhido com afeto: Chuva
A integração da égua à rotina da unidade também foi marcada por um gesto simbólico e coletivo. Batizada como “Chuva”, nome escolhido por meio de uma enquete realizada na unidade com a participação de colaboradores e pacientes do Crer. A escolha faz referência à égua da animação “Spirit – O Corcel Indomável”, personagem que representa liberdade, força e superação, além da semelhança física com a égua.
O batismo marcou oficialmente o início de uma nova fase, fortalecendo o vínculo afetivo entre Chuva, a equipe multiprofissional e os pacientes atendidos na equoterapia, que acompanham de perto sua recuperação e adaptação.
Para o diretor técnico assistencial do Crer, Alan Anderson Fernandes Oliveira, a história de Chuva traduz o propósito da unidade: “A equoterapia é uma prática que envolve sensibilidade, vínculo e confiança. Ter um animal que também passou por um processo de superação reforça, na prática, o valor da reabilitação como reconstrução de vidas. Chuva não é apenas parte da terapia, ela também é símbolo do cuidado que acreditamos”, afirma.
Reabilitação que transforma
Além de contribuir para o desenvolvimento motor, equilíbrio, coordenação, postura e aspectos emocionais dos pacientes, a presença de Chuva na equoterapia também fortalece valores como empatia, respeito aos animais e consciência social. A expectativa é que, após o período de testes, Chuva também possa participar de atividades complementares, como passeios terapêuticos com charrete, ampliando as possibilidades de intervenção e interação com os usuários do serviço.
No Crer, a história da égua deixa de ser apenas um relato de violência e se transforma em um exemplo concreto de acolhimento, reconstrução e esperança; mostrando que, com cuidado e tempo, até as feridas mais profundas podem dar lugar a novos caminhos.
